Fertilidade: falar de liberdade informada

A decisão de ter filhos é uma das decisões mais importantes da vida e deve ser tomada com liberdade, consciência e segurança, seja ela tomada a título individual ou em conjunto com um parceiro.

Nas últimas décadas, o passo de decidir tentar engravidar pela primeira vez tem sido cada vez mais adiado para idades mais tardias. Muitas mulheres e casais tomam essa decisão por razões pessoais, profissionais, sociais, financeiras ou até políticas. A entrada mais tardia no mercado de trabalho, a instabilidade profissional, o custo da habitação, o investimento na carreira, a procura de maior estabilidade económica e as mudanças nos projetos de vida fazem com que o momento de ter filhos seja, muitas vezes, empurrado para mais tarde.

Esta opção é compreensível. A decisão de ter filhos é uma das decisões mais importantes da vida e deve ser tomada com liberdade, consciência e segurança, seja ela tomada a título individual ou em conjunto com um parceiro. No entanto, é fundamental que essa decisão seja acompanhada de informação clara sobre fertilidade.

O grande desafio é que o tempo social e o tempo biológico nem sempre caminham ao mesmo ritmo. A sociedade mudou muito: estudamos durante mais tempo, começamos a trabalhar mais tarde, compramos casa mais tarde, encontramos estabilidade mais tarde e, naturalmente, pensamos na maternidade mais tarde. Mas a fertilidade feminina continua a estar fortemente ligada à idade.

A mulher nasce com um número finito e não renovável de ovócitos, a chamada reserva ovárica, que diminui de forma progressiva e irreversível ao longo da vida reprodutiva, à medida que os ovários sofrem uma perda natural de folículos.

Esta diminuição não é apenas quantitativa: também a qualidade ovocitária, nomeadamente a integridade cromossómica dos ovócitos, tende a deteriorar-se com a idade, aumentando o risco de aneuploidias. Segundo o Committee Statement mais recente do American College of Obstetricians and Gynecologists sobre este tema, publicado na revista Obstetrics & Gynecology em novembro de 2025, a fertilidade diminui de forma natural com a idade, sendo por isso recomendada uma avaliação especializada mais precoce à medida que a idade avança: a partir de um ano de tentativa sem sucesso em mulheres até aos 35 anos, seis meses entre os 36 e os 40 anos, e de forma imediata acima dos 40 anos. Importa, no entanto, sublinhar que esta trajetória não é uniforme: existe uma variabilidade individual significativa na velocidade deste declínio, pelo que a idade cronológica, apesar de ser o preditor mais robusto a nível populacional, nem sempre reflete com exatidão a reserva ovárica de cada mulher em particular.

Isto não significa que todas as mulheres terão dificuldade em engravidar depois dos 35 anos.

Cada caso é diferente. Há mulheres que engravidam naturalmente em idades mais avançadas e outras que encontram dificuldades mais cedo. Mas, em termos gerais, a idade é um dos fatores mais importantes quando falamos de fertilidade feminina.

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Neste contexto, abordar o tema do adiamento da maternidade não deve ser entendido como uma forma de pressão sobre a decisão reprodutiva de cada mulher, mas antes como um contributo para uma tomada de decisão informada. O objetivo do aconselhamento em fertilidade não é determinar quando uma mulher deve ter filhos, mas sim assegurar que essa decisão, seja ela adiar, avançar ou ainda não decidir, é tomada com conhecimento sobre a sua própria fisiologia reprodutiva e as suas implicações a médio e longo prazo.

Muitas vezes, o problema não está na escolha em si, mas na falta de informação sobre as suas possíveis consequências. Uma mulher pode decidir que não quer ser mãe, que quer ser mãe mais tarde ou que ainda não sabe. Todas essas decisões são legítimas. Mas idealmente devem ser tomadas com conhecimento sobre a fertilidade, a idade reprodutiva e as opções disponíveis.

Neste contexto, uma avaliação especializada pode ser muito importante. Através de uma consulta de fertilidade, é possível avaliar fatores como a idade, a história clínica, a regularidade dos ciclos menstruais, a reserva ovárica e outros elementos relevantes. Esta avaliação não obriga a iniciar um tratamento. Muitas vezes, serve apenas para informar, orientar e ajudar a planear.

Para algumas mulheres, a criopreservação de ovócitos pode ser uma opção a considerar. Não é uma garantia de gravidez futura. Mas pode permitir preservar ovócitos numa fase em que a fertilidade poderá ser mais favorável, funcionando como uma ferramenta de planeamento reprodutivo.

Deve, por isso, ser discutida com rigor e de forma individualizada.

No CETI, entendemos que falar de fertilidade é, acima de tudo, promover a liberdade informada de cada mulher e casal. A decisão de adiar a maternidade pode assentar em múltiplas razões, todas elas legítimas. Mas a informação sobre fertilidade não deve esperar.

Se está a ponderar adiar a maternidade, se tem dúvidas sobre a sua fertilidade ou se pretende simplesmente compreender melhor as suas opções reprodutivas, uma avaliação especializada pode constituir um primeiro passo esclarecedor.

Quanto mais precoce for o acesso à informação, mais consciente e informada poderá ser a decisão reprodutiva de cada pessoa.