Qualidade ovocitária: Porque é tão importante na fertilidade feminina?
É também importante esclarecer que reserva ovárica e qualidade ovocitária não são a mesma coisa.
Quando falamos de fertilidade feminina, é comum pensar-se apenas na quantidade de ovócitos disponíveis. No entanto, a qualidade ovocitária é igualmente importante e tem um papel fundamental nas probabilidades de gravidez, tanto de forma espontânea como em contexto de tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA).
A mulher nasce com uma reserva de ovócitos definida, que não se regenera. Ao longo da vida, essa reserva diminui naturalmente: segundo uma revisão publicada no British Columbia Medical Journal, estima-se que passe de várias centenas de milhares de ovócitos à nascença para cerca de 1000 na altura da menopausa. Mas não é apenas o número que se altera. De acordo com o comité de opinião, de 2014, do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) e da Sociedade Americana de Medicina da Reprodução (ASRM), a qualidade também diminui, com um declínio que se começa a notar por volta dos 32 anos e se acentua depois dos 37.
Isto significa que, mesmo existindo ovócitos disponíveis, nem todos terão o mesmo potencial para originar um embrião viável e uma gravidez evolutiva.
A qualidade ovocitária depende de vários fatores biológicos, sendo a componente cromossómica um dos mais importantes. Com o avançar da idade aumenta a probabilidade de alterações no número de cromossomas (aneuploidias) nos ovócitos. Num estudo publicado na revista Science em 2019, os autores concluíram que estes erros de origem ovocitária ajudam a explicar a curva da fertilidade natural ao longo da vida. Um estudo de 2020, publicado no Journal of Assisted Reproduction and Genetics, refere que a taxa de aneuploidia é mais baixa entre os 26 e os 37 anos e aumenta de forma acentuada a partir daí. Estas alterações podem comprometer o desenvolvimento embrionário e aumentar o risco de falha de implantação e de aborto espontâneo, como refere o comité de opinião do ACOG e da ASRM.
Por este motivo, a idade feminina é um dos fatores mais relevantes na avaliação da fertilidade. Muitas mulheres mantêm ciclos menstruais regulares depois dos 35 anos, o que pode transmitir a ideia de que a fertilidade se mantém igual. No entanto, ter menstruação regular não significa que a qualidade dos ovócitos seja a mesma de idades mais jovens. A ovulação pode continuar a acontecer, mas, segundo o ACOG e a ASRM, a probabilidade de gravidez por ciclo tende a diminuir.
Esta realidade não deve ser encarada com alarmismo, mas sim com informação.
Para mulheres ou casais que desejam engravidar, uma avaliação especializada pode ajudar a perceber a reserva ovárica, o contexto clínico individual e as opções disponíveis. Esta avaliação pode incluir história clínica, ecografia ginecológica, avaliação hormonal e outros exames considerados adequados pelo médico.
É também importante esclarecer que reserva ovárica e qualidade ovocitária não são a mesma coisa. A reserva, avaliada através da hormona anti-Mülleriana (AMH) e da contagem de folículos antrais, estima a quantidade de ovócitos disponível e ajuda a prever a resposta à estimulação. Contudo, numa apresentação de 2010 na Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), Richard Anderson salientou que estes marcadores preveem o número de ovócitos e não medem a qualidade de cada um. Segundo um estudo da Universidade de Duke, publicado na Human Reproduction em 2018, uma reserva baixa numa mulher jovem não significa, por si só, ovócitos de pior qualidade. A idade continua a ser o principal indicador indireto da qualidade ovocitária, como afirma o mesmo autor.
Nos tratamentos de fertilidade, como a fecundação in vitro (FIV) ou a injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI), a reserva ovárica condiciona sobretudo a resposta à estimulação e o número de ovócitos obtidos, enquanto a qualidade dos ovócitos influencia o desenvolvimento embrionário, a probabilidade de implantação e de gravidez evolutiva. Mesmo com embriões geneticamente normais, um estudo de 2020 do Journal of Assisted Reproduction and Genetics mostra que as taxas de implantação e de nados-vivos continuam a diminuir com a idade, o que indica que outros fatores também contribuem.
Por isso, cada plano de tratamento deve ser individualizado, tendo em conta a idade, os exames realizados, a história reprodutiva e os objetivos de cada pessoa ou casal.
No CETI, acreditamos que informar é uma parte essencial do acompanhamento em fertilidade. Compreender conceitos como reserva ovárica, qualidade ovocitária e idade reprodutiva ajuda a reduzir incertezas e a tomar decisões de forma mais tranquila.
Se tem dúvidas sobre a sua fertilidade, se está a tentar engravidar há algum tempo ou se pondera adiar a maternidade, pode ser importante realizar uma avaliação especializada. Quanto mais cedo existir informação, mais opções podem ser discutidas.

