A criopreservação não é uma garantia de gravidez, mas pode ser uma forma de preservar possibilidades para o futuro.
A maternidade acontece cada vez mais tarde na vida de muitas mulheres. Por razões pessoais, profissionais, familiares, económicas ou de saúde, é frequente que o projeto de ter filhos seja adiado. Esta é uma realidade social cada vez mais presente, que deve ser acompanhada de informação clara sobre fertilidade.
A criopreservação de ovócitos surge neste contexto como uma opção de planeamento reprodutivo.
Uma forma de a compreender é pensar num seguro: espera-se não ter de o utilizar, mas é um backup que pode vir a ser necessário. Tal como acontece com um seguro, não oferece uma cobertura absoluta, por isso não deve ser apresentada como uma promessa. Permite, no entanto, preservar ovócitos numa idade em que a sua qualidade é, em regra, mais favorável. Esta é, aliás, uma das opções reconhecidas nas recomendações da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), publicadas em 2020 na revista Human Reproduction Open, para mulheres que pretendem preservar a fertilidade face ao declínio associado à idade.
A fertilidade feminina está muito ligada à idade.
Com o passar dos anos, a reserva ovárica diminui e a qualidade dos ovócitos tende a reduzir-se. Por isso, mesmo com ciclos menstruais regulares, a probabilidade de gravidez diminui progressivamente. Segundo o parecer do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) e da Sociedade Americana de Medicina da Reprodução (ASRM), publicado em 2014 na revista Fertility and Sterility, este declínio começa por volta dos 32 anos e torna-se mais rápido depois dos 37, razão pela qual se recomenda uma avaliação mais precoce a partir dos 35 anos e ainda mais imediata depois dos 40.
Na criopreservação, os ovócitos são recolhidos após estimulação ovárica e congelados por vitrificação, uma técnica laboratorial de congelação ultrarrápida. Se a mulher vier a precisar deles, são descongelados, fecundados em laboratório e utilizados num tratamento de Procriação Medicamente Assistida (PMA).
É importante sublinhar que a criopreservação não garante uma gravidez futura.
O resultado depende de vários fatores, sobretudo da idade no momento da recolha e do número de ovócitos congelados, mas também da sobrevivência após descongelação, da fecundação, do desenvolvimento embrionário e da implantação. Uma meta-análise publicada em 2013 na revista Fertility and Sterility, que reuniu dados individuais de mais de 1800 mulheres, concluiu que a probabilidade de nascimento diminui com a idade, mesmo com técnicas de congelação modernas. Por sua vez, a ASRM refere, nas orientações que publicou em 2021 na mesma revista, que ainda não há dados suficientes para prever com rigor o resultado em cada caso individual, embora os estudos disponíveis apontem para melhores resultados quando a criopreservação é feita em idades mais jovens. Por isso, mais do que uma garantia, deve ser vista como uma possibilidade adicional.
Aliás, a maioria das mulheres não chega a recorrer aos ovócitos congelados, o que é coerente com a ideia de backup. Um estudo publicado em 2021 na revista Reproductive BioMedicine Online, de um centro norte-americano, mostrou que apenas cerca de 7% das mulheres que congelaram ovócitos regressaram para os utilizar. Um estudo mais recente, publicado em 2025 no American Journal of Obstetrics and Gynecology com dados nacionais dos Estados Unidos, concluiu que o número de mulheres que congelam ovócitos quase quadruplicou entre 2014 e 2021, mas que apenas cerca de 6% regressaram para os utilizar nos cinco a sete anos seguintes.
Ainda assim, para muitas mulheres pode ser uma decisão importante: permite ganhar tempo, reduzir alguma pressão associada à idade reprodutiva e manter em aberto uma possibilidade para o futuro, sobretudo quando a maternidade não é desejada no imediato, mas poderá vir a ser considerada mais tarde.
A criopreservação também pode ser indicada em contextos médicos, por exemplo antes de tratamentos que possam comprometer a função ovárica.
No entanto, tem sido cada vez mais procurada por mulheres que querem planear a maternidade de forma mais informada, mesmo sem doença associada. As recomendações mais recentes da ESHRE sobre estimulação ovárica, publicadas na revista Human Reproduction, dedicam inclusivamente uma secção própria à criopreservação eletiva de ovócitos.
O mais importante é que esta decisão seja tomada com acompanhamento especializado. Antes de avançar, deve ser feita uma avaliação individual, que pode incluir idade, reserva ovárica, história clínica, ecografia, análises hormonais e expectativas pessoais. Esta consulta ajuda a perceber se a criopreservação faz sentido naquele caso concreto, quais são as suas limitações e quais os encargos do processo (estimulação ovárica, recolha de ovócitos, custos e tempo de conservação).
No CETI, acreditamos que informar é essencial. A criopreservação de ovócitos não deve ser comunicada como uma solução milagrosa, mas como uma ferramenta de planeamento reprodutivo que pode fazer sentido para algumas mulheres.
Se está a ponderar adiar a maternidade ou tem dúvidas sobre a sua fertilidade, uma avaliação especializada pode ajudá-la a compreender melhor as suas opções e a decidir com mais segurança.

